Ulisses&Penélope


Blog para mocinhas que se inspiram em Ulisses nas suas Odisséias em mares urbanos, sem deixar de lado JAMAIS a faceirice de uma luxuosa Penélope moderna.

Este é um espaço para você gastar 5 minutos lendo todo dia; uns poucos minutos testando as novidades e infinitas horas aplicando pro resto da vida o que achar que deve.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

A heroína cansada x A geladeira sem graça


A cena é clássica: uma mocinha emancipada, entre 20 e 35 anos, chega em sua casa onde mora com as amigas ou namorado, depois de um dia exaustivo de trabalho. Como sempre o estômago pede alguma coisinha mas, diferente dos outros dias, o paladar parece mais ativado e insiste em pedir ‘alguma coisa especial’. Ela abre a geladeira e estão lá os ovos, o frango congelado, o sal, os restos de um outro almoço. Se ela quiser até pode preparar uma comida, mas com o que tem disponível não vai conseguir fazer nada diferente a ponto de valer o esforço. Ela olha o relógio: não dá mais pra sair. Pizza de novo não... Chinês, japonês, mexicano delivery? Caros demais para este momento do mês.

Pensa. Leve desespero. (Por quê mesmo que eu saí da casa de minha mãe?, é a única coisa que passa na cabeça...). Abre a geladeira e se rende à margarina Deline com pão, um copo de iogurte/suco/refri/insira-aqui-sua-bebida-industrializada-engana-vontade-usual, senta no sofá e entrega-se à sem gracice do fim de dia.

Corta o take.

Numa casinha simples e cheia de goteiras no Garcia, a moça está cansada depois de uma árdua luta contra sua rotina. A dissertação andou pouco, o carro pede cuidados, esqueceu de pagar uma conta... Aí que o namorado fala a combinação mágica de palavras: amor, estou com fome!  Ela então abre a geladeira e estão lá os ovos, o frango congelado, o sal, os restos de um outro almoço, umas coisinhas de muito tempo atrás... E ela dá as opções de menu: frango à oriental, omelete de queijo e ervas ou macarrão à cabornara. O que prefere?

Em alguns minutos estão comendo e falando amenidades, do dia, da goteira, do cansaço, do vinho branco que está acabando. Fim da noite. Ainda resta um sorriso. Ufa...

(...)

Antes de você mudar de página xingando porque essa moça-que-escreve-é-chata-e-metida-demais, eu digo que qualquer uma pode pular da primeira cena para a segunda sem grandes esforços. O segredo? Uma pequena lista de ingredientes salva-vidas para qualquer mulher que gosta de comer bem.

É assim. Alimentação é um espaço de afetividade, para além do simples nutrir nosso corpo. Por isso é importante variar e transformar momentos de simplicidade em algo agradável. E sendo este blog voltado para as Penélopes modernas, que nem são herdeiras (para só comer em restaurante), nem desocupadas (para irem no mercado todo dia), nem Amélias (que no café-da-manhã já estão preocupadas com o cardápio do jantar), eu apresento a fórmula mágica de transformação de noites sem-graça em noites de deleite. E dou o caminho das pedras para mocinhas com bolsos de tamanhos e profundidades variadas.

O princípio é um só: pensar em ingredientes que reúnam capacidade de transformar o entorno, versatilidade no uso e resistência a longos períodos em sua geladeira. ‘Toques mágicos’ que fazem do ovo frito de todo dia um delicioso omelete à là provence.

Porque não adianta encher a geladeira de delícias perecíveis a cada ida ao mercado, enlouquecer naquela semana para comer tudo antes de estragar para, na semana seguinte, amargar dias e dias de miojo com ki-suco. Saiamos dessa porque a gente merece mais, gatíssima!

Preparei três listas possíveis - acumuláveis entre elas - perfazendo diferentes valores. A regra é uma só: tenha SEMPRE essas coisas na sua geladeira. E toda vez que for no mercado, se tiver dúvida se esses itens constam em sua despensa no momento, compre-os! Garanto que a coisa mais difícil vai ser jogar fora algum desses itens, que certamente serão vitais para dar uma reviravolta nas noites como aquela descrita lá no primeiro parágrafo.

Hoje eu vou dar apenas a primeira opção, para que vocês voltem aqui e tenham tempo de internalizar a regra do jogo. Pode imprimir e levar para o mercado, juro que não vão se arrepender.

LISTA 1: Até $50,00
       Alho picado conservado em água
Para nunca ter preguiça de fazer pelo menos um macarrão alho e óleo decente.
Condimentos: mostarda amarela, catchup e maionese
Juntos eles só servem para hot-dog e hambúrguer, mas em separado eles transformam molhos, frangos, filés, engrossam caldos e permitem variar nos recheios.
Molho shoyo, de preferência light
Lembra do frango à oriental do menu oferecido ao namorado? Pois então: é com ele que você dá um toque especial a carnes, sopas e legumes no vapor. E dura para todo o sempre amém!
Creme de leite
Para além daquele macarrão com atum da época das viagens para praia na adolescência, um creme de leite bem usado pode ser base de inúmeros molhos (alho, manteiga, sal, creme de leite e mostarda faz qualquer franguinho velho renascer), podendo virar de um frapê (bater com uma fruta, açúcar e um pouco de água) até uma sobremesa bacana (ele bem gelado com açúcar, gotas de limão e um biscoitinho de leite esfarelado espantam até TPM, garanto). Não deixe faltar!
Ervas secas
Primeira coisa: orégano não transforma nada que não seja pizza. Ele tem que estar lá na dispensa, sim, mas não conte com ele para salvar sua vida. O ideal é ter pelo menos três ervas de diferentes tipos de acordo com seu paladar. Meu voto vai para o alecrim (mil molhos, mil carnes, mil ovos, mil saladas o amam!) + salsa (idem) + sálvia. Manjericão seco para mim é engodo, mas não ofende sua despensa se você curtir. Qualquer que seja a escolha, tire do saquinho e coloque em um tuppeware bem fechado para durar bastante. E vá testando o uso.
Curry em pó
Ele salva as carnes sem graça e dá vida a risotos. Para usar sempre com parcimônia, podendo até arriscar misturas de doce e salgado (filé de peixe com alho, sal, limão, curry e manga é vida, minha gata!)
Bacon
Pouco importa se você tem preconceito com essa partezinha gordurosa do porco; ele dá sabor a muitas coisas e isso é o que vale. Pode ser um pedaço de uns 100g que está de ótimo tamanho. Vai virar a mesa no omelete, em qualquer macarrão, no feijão velho e sem-graça que pode virar um tropeiro fake se você tiver farinha e se tiver uma acelga esquecida você traz o Soho para dentro de sua casa. Vai que é sua!
Uma boa massa de macarrão
Nada de Pilar, Fortaleza, Petybon, Renata... nada disso! Essas marcas podem até constar em sua despensa, mas para cada dois pacotes de macarrão meia-boca que você comprar, compre um bom de verdade e guarde. Barilla, Divella ou Zara (italiana), branco ou integral, são ótimas pedidas. Não tenha medo do preço: para uma mulher como eu, um pacote de macarrão dá pelo menos cinco porções satisfatórias; se custar até uns R$7 não precisa ser um gênio da matemática para sacar que é um bom negócio. E insisto: uma massa boa dispensa grandes malabarismos no molho. Alho + óleo, cebola + bacon ou creme de leite (aquele restinho que sobrou do último sábado, lembra?) + gotinhas de limão (o meio limão que você usou pro vinagrete, sabe?) são suficientes se a massa for boa. Mas vá fazer isso com Pillar para você ver... triste resultado.
Uma garrafa de vinho médio-bom
Não, não é alcoolismo apenas. Um vinho pode ser acompanhamento (meia taça já é suficiente para dar um up no jantar solitário), pode temperar o frango ou puxar aquele caldinho do fundo da panela e fazer surgir um molho. Isso faz toda a diferença na vida de uma pessoa, tenha certeza. Particularmente eu não gosto do sabor de vinho tinto cozido e o acho meio pesado para o calor de nossa cidade, então vou de brancos ou verdes (um tipo entre o branco e o rosé). Coloco lá na geladeira e vou bebericando ou uso para temperar as coisas quando preciso.
Goiabada cascão
Tem quem deteste (Celsinho, você está por aí? rsrs), mas eu simplesmente amo! Um pedacinho depois do almoço, pura ou com um colherada de creme de leite/queijo/chatilly. Batida com leite gelado vira um frapé que satisfaz qualquer larica. E, pasmem!, bem amassada e coberta com uma camada de azeite de oliva temperado com sal funciona como um molho de salada, desses que você vai fazendo as trouxinhas com o alface e mergulhando na mistura. Chique no último!

É isso. Testem, alterem, me contem. Agora me vou porque o arrozinho ficou pronto e é bom comer antes que esfrie. 
Sala de jantar, de Bonnard 

2 comentários:

Ana F. disse...

Menina!

primeiro, que só uma ariana ascendente em virgem para escrever um "frescurite a jato". Porque frescurite é coisa de virginiano, mas tem que ser a jato, que ariano não tem tempo pra essas coisas...

segundo, que essa que enche a geladeira de delícias perecíveis, etc... sou eu! e depois morro no restaurante, pq miojo com ki-suco me dá enxaqueca, oh vida!

vou seguir tudo quase religiosamente. E aguardar a receita daquele molho ótimo!

Beijo!

Ramona disse...

Gata, bombou!!! Eu que não suporto cozinhar p comer sozinha, aliás passo longe da cozinha sempre...me empolguei, viu, querídissima...adorei!!!